Não querem lá ver que isto ainda mexe! Fico muito feliz companheiros, porque isto de falar sozinho sobre assuntos do dia-a-dia já cansa. Se alguém andasse atrás de mim com um gravador veria que falo muito, a maior parte das vezes comigo próprio. Obviamente se isso acontecesse a minha primeira reacção seria dizer: quem és tu e porque é que andas atrás de mim com um gravador, seu pervertido?! Mas tirando esse pormenor tudo o resto é verdade. Já o valor dessas opiniões... bom isso é outro assunto.
Quando esta coisa da crise começou a minha opinião oscilava entre a frustração resignada de quem acha que isto é normal, tendo em conta que somos mal governados, e uma certa hilariedade, como um invidivíduo que numa situação de pânico se ri nervosamente da situação desesperada em que se encontra. Agora acho que estou apenas zangado.
Este último orçamento, aprovado hoje por um grupo de gente bestial (no sentido em que são umas bestas) vai falhar. Não há outra hipótese. Mais impostos vai levar a uma maior quebra do consumo, mais falências, menos gente a pagar IRS e mais gente a receber subsídio de desemprego, menos IVA, menos impostos sobre os combustíveis. Tal como o Governo prevê o PIB vai contrair, provavelmente mais do que aquilo que se prevê, como tem acontecido até agora. Logo no fim disto tudo a nossa dívida pública (que se mede em proporção do PIB) vai ser ainda maior.
Mais, o provável é que as receitas do Estado fiquem aquém do previsto, como tem acontecido até agora também, o que significa um agravamento ainda maior. Conclusão, após toda esta dor, vamos estar pior do que estávamos e o Estado mais longe de conseguir pagar as suas dívidas. Têm dúvidas? Isto foi o que aconteceu neste magnífico e a todos os níveis espectacular ano de 2012.
Mas há outra coisa de que se fala pouco. Esta crise tem um impacto imediato, mas também um impacto de médio-longo prazo: a destruição do nosso (fraco) aparelho produtivo. De cada vez que fecha uma empresa perdem-se competências, máquinas, tecnologia, clientes. Numa economia a funcionar normalmente isto acontece com frequência e faz parte da regeneração do tecido empresarial: quando umas vâo à falência outras são criadas. Mas quando acontece nesta escala, não estamos apenas a sofrer no imediato, mas a diminuir o potencial produtivo da nossa economia. Mesmo que isto melhorasse em 2 anos, vai demorar muito tempo até recuperarmos tudo aquilo que se perdeu nesta brutalidade.
Ora, eu não sou advinho. As minhas previsões baseiam-se no que aconteceu no passado. Isto significa que, com toda a honestidade, não sei qual é o objectivo do Governo. Só vejo duas opções: o Governo está preso à sua própria retórica e sentem que não podem recuar. Logo o objectivo neste momento é empurrar ao máximo a política de austeridade, para que quando as coisas falharem possam dizer: tentámos, mas não funcionou. Venham os próximos a ver se fazem melhor. Outra opção: o Governo sabe que vai falhar, mas sentem que não têm outra opção, logo vão esticar a corda ao limite para depois poderem dizer à Alemanha: não funciona, precisamos de outro rumo. Continuarão a salvar a face, à custa do sofrimento de muita gente.
Agora calo-me, para não vos aborrecer mais.