Uma das coisas mais interessantes da Internet é que nada desaparece. Pode-se pensar que sim, mas mesmo quando se apaga um email, ou se anula uma conta no facebook, ou se limpa o histórico de navegação, algures nessa coisa a que se chama a nuvem fica lá um registo do que andámos para aqui a fazer. Depois um dia, quando o Obama está aborrecido, liga-se à conta da NSA e põe-se a dar uma olhada aos emails parvos que enviámos aos amigos há 10 anos.
Este blogue é apenas mais um exemplo, já que de vez em quando recebo uma notificação de que teve mais um like, ainda que já tenha passado mais de um ano desde que aqui escrevemos.
Em vez de prometer uma continuidade produtiva, dizendo que daqui para a frente é e que vamos escrever que nem uns animais, prometo esta continuidade de zombie, até ao dia do juízo final, que seguramente estará para breve.
segunda-feira, 2 de novembro de 2015
segunda-feira, 16 de junho de 2014
Camaradas,
A derrota de Portugal foi uma coisa boa! Não me entendam
mal, perder é cagalhão. Embora ache que o árbitro possa ter exagerado aqui e
ali, no fim perdemos porque fomos piores, o que frustra ainda mais (para mim
pelo menos). Mas o significado desta minha abertura é outra: para o cidadão consciencializado
da gravidade do momento político que atravessamos seria sempre difícil apoiar a
seleção nacional, devido ao fato não negligenciável de que isto se tratam de
milionários a chutar uma bola em oposição a outros milionários, num país (Brasil)
onde as pessoas passam fome, embora tenha riquezas naturais suficientes para
que toda a gente seja pelo menos remediada. O que quero dizer com isto é que
com esta derrota tornamo-nos imediatamente nos cães de baixo (ou underdogs,
nessa língua bárbara que domina o espaço simbólico) e portanto passa a ser aceitável
para o simpático burguês de esquerda apoiar a sua equipa de futebol. Além do
mais mimetiza-se com esta coisa a luta politica que nos tem dominado nos
últimos anos, com os alemães a darem-nos uma tareia sem serem particularmente
hábeis (ou bonitos, diga-se sem ser de passagem).
A seleção nacional de futebol portuguesa ainda pode ganhar
tudo, mas a partir deste momento tudo o que ganhar será à custa de sangue, suor
e lágrimas (expressão usada por Churchill quando lançou o Reino Unido na guerra
contra a Alemanha; logo expressão carregada de simbolismo, se é que me faço
entender) e portanto podemos agora todos aplaudir, independentemente de
acharmos que o Passos Coelho é o demónio ou apenas a pior pessoa que já pisou
este nosso cantinho à beira-mar semeado.
quinta-feira, 3 de abril de 2014
sexta-feira, 28 de março de 2014
quinta-feira, 28 de março de 2013
I'm so ronery...
Diário de Kim Jong-un
10:30 - Levanto-me e corro para a balança. Perdi um quilito! O meu ex-colega de escola Jong Sau-pan costumava chamar-me gordinho quando tínhamos cinco anos. Se eu não o tivesse mandado exterminar juntamente com toda a sua família imediata, e mandado violar todas as sua primas e primos em segundo grau e encarcerar toda a sua família indirecta até ao 5º grau, mostrava-lhe quem é gordinho agora!
11:30 - A boa disposição com que acordei esmoreceu... comi 20 croissants para compensar. JONG SAU-PANNNNNNN
12:30 - Assuntos de estado. Os meus conselheiros dizem-me que o país está à beira do colapso devido à ingerência externa de várias potências capitalisto-suínas, começando pelos lacaios infiéis da Coreia do Sul, apoiados pelos arrogantes dos EUA e pelos cães invejosos do Japão. Os meus conselheiros afiançam-me também que o apoio da China tem vindo a esmorecer o que irá enfraquecer ainda mais a nossa posição.
Eu pergunto-lhes se o Dennis Rodman já se foi embora. Diverti-me tanto com ele. Eles não respondem...
14:30 - Adormeci a jogar computador com a cabeça dentro de um balde de gelado. Atirei o mordomo pela janela e mandei exterminar toda a sua família. Já lhe tinha dito que não gosto de gelado de baunilha.
15:30 - De novo os meus conselheiros.. blah, blah, blah, movimentações militares, guerra com a Coreia do Sul, misseis... espera lá, disseram misseis! Eu gosto de misseis. Temos disso? Posso disparar um? ohhhhhhhh estou feliz outra vez.
17:30 - Parece que os da Coreia do Sul estão a telefonar. O telefone vermelho está a apitar. Mas eu estou aqui sentado e o telefone está tão longe...
19:30 - Nada como um chocolate quente e umas panquecas antes de jantar. Gosto dessa palavra, panquecas, pan-quecas, quecas hihihihi
21:30 - Maratona de televisão hoje: comecei por ver um jogo da NBA, agora vou ver o House e depois o Modern Family. Gosto do gordinho, embora não perceba porque é que ele vive com outro homem e por que é que eles adoptaram uma criança juntos.
23:30 - Merda, o site onde vejo o Modern Family está bloqueado. Telefono a um conselheiro, aborrecido, e digo-lhe que temos que fazer alguma coisa em relação a este bloqueio, que decerto terá origem na Coreia do Sul ou nos EUA, onde estão alojados estes sites. Ele responde entusiástico, que terá muito prazer em lidar finalmente com os bloqueios desses dois países. Não sei porque é que ele está tão feliz, mas espero que o site volte a estar online rapidamente. Porque eu estou tão sozinho. Só o meu paizinho é que me entendia:
10:30 - Levanto-me e corro para a balança. Perdi um quilito! O meu ex-colega de escola Jong Sau-pan costumava chamar-me gordinho quando tínhamos cinco anos. Se eu não o tivesse mandado exterminar juntamente com toda a sua família imediata, e mandado violar todas as sua primas e primos em segundo grau e encarcerar toda a sua família indirecta até ao 5º grau, mostrava-lhe quem é gordinho agora!
11:30 - A boa disposição com que acordei esmoreceu... comi 20 croissants para compensar. JONG SAU-PANNNNNNN
12:30 - Assuntos de estado. Os meus conselheiros dizem-me que o país está à beira do colapso devido à ingerência externa de várias potências capitalisto-suínas, começando pelos lacaios infiéis da Coreia do Sul, apoiados pelos arrogantes dos EUA e pelos cães invejosos do Japão. Os meus conselheiros afiançam-me também que o apoio da China tem vindo a esmorecer o que irá enfraquecer ainda mais a nossa posição.
Eu pergunto-lhes se o Dennis Rodman já se foi embora. Diverti-me tanto com ele. Eles não respondem...
14:30 - Adormeci a jogar computador com a cabeça dentro de um balde de gelado. Atirei o mordomo pela janela e mandei exterminar toda a sua família. Já lhe tinha dito que não gosto de gelado de baunilha.
15:30 - De novo os meus conselheiros.. blah, blah, blah, movimentações militares, guerra com a Coreia do Sul, misseis... espera lá, disseram misseis! Eu gosto de misseis. Temos disso? Posso disparar um? ohhhhhhhh estou feliz outra vez.
17:30 - Parece que os da Coreia do Sul estão a telefonar. O telefone vermelho está a apitar. Mas eu estou aqui sentado e o telefone está tão longe...
19:30 - Nada como um chocolate quente e umas panquecas antes de jantar. Gosto dessa palavra, panquecas, pan-quecas, quecas hihihihi
21:30 - Maratona de televisão hoje: comecei por ver um jogo da NBA, agora vou ver o House e depois o Modern Family. Gosto do gordinho, embora não perceba porque é que ele vive com outro homem e por que é que eles adoptaram uma criança juntos.
23:30 - Merda, o site onde vejo o Modern Family está bloqueado. Telefono a um conselheiro, aborrecido, e digo-lhe que temos que fazer alguma coisa em relação a este bloqueio, que decerto terá origem na Coreia do Sul ou nos EUA, onde estão alojados estes sites. Ele responde entusiástico, que terá muito prazer em lidar finalmente com os bloqueios desses dois países. Não sei porque é que ele está tão feliz, mas espero que o site volte a estar online rapidamente. Porque eu estou tão sozinho. Só o meu paizinho é que me entendia:
domingo, 24 de março de 2013
Habemus sucessorum
Pergunto-me como se fazem coisas destas? O Público de hoje tem uma "reportagem" sobre o António Borges. Infelizmente não tenho acesso aos conteúdos pagos, logo apenas consigo ler o resumo que está no link indicado em cima; e este resumo não augura nada de bom. Eu até teria muito gosto em ler uma reportagem sobre o A. Borges. Desde há muito que ouço o seu nome, sempre apresentado como um dos possíveis futuros líderes do PSD e estas coisas não acontecem por acaso. Se o mencionam é porque a dada altura ele se propôs ou pelo menos movimentou-se nesse sentido. Mas esta reportagem aparenta estar muito longe daquilo que seria necessário e pelo contrário parece ser um exercício puro de legitimação, de limpeza da imagem pública, quando o que importava era perceber de que forma este homem interligou a sua carreira internacional com a sua presença na política nacional; e mais importante, que papel tem ele exactamente no Governo actual? Quem o escolheu e com que objectivos? Por que razão continua próximo do Governo apesar do falhanço da sua proposta para a RTP e das suas declarações que o próprio Governo condenou?
Seja como for, o que eu gostava mesmo de saber, para voltar ao início, é como se fazem coisas destas, referindo-me a esta reportagem? Porque em política muito poucas coisas acontecem por acaso e se agora aparece este artigo por alguma razão será. Terá sido o próprio António Borges, a preparar-se para a queda do actual Governo (que acredito esteja para breve)? Terão sido ordens de cima, do Belmiro ou outra pessoa qualquer, que querem promover aquele que na sua opinião poderia implementar o programa político que eles desejam? E como se escolhe a jornalista? Será uma encomenda explícita ou pelo contrário escolhe-se uma jornalista que à priori tem simpatia por esta pessoa e pelo seu programa político?
O PS já se anda a preparar para eleições há uns meses. O Presidente já fez várias declarações a criticar o Governo. As vozes a pedir Governos de PS e PSD começaram a levantar-se. Tudo sinais de que se aproxima uma mudança de Governo. Espero sinceramente que não seja liderado pelo Borges.
Seja como for, o que eu gostava mesmo de saber, para voltar ao início, é como se fazem coisas destas, referindo-me a esta reportagem? Porque em política muito poucas coisas acontecem por acaso e se agora aparece este artigo por alguma razão será. Terá sido o próprio António Borges, a preparar-se para a queda do actual Governo (que acredito esteja para breve)? Terão sido ordens de cima, do Belmiro ou outra pessoa qualquer, que querem promover aquele que na sua opinião poderia implementar o programa político que eles desejam? E como se escolhe a jornalista? Será uma encomenda explícita ou pelo contrário escolhe-se uma jornalista que à priori tem simpatia por esta pessoa e pelo seu programa político?
O PS já se anda a preparar para eleições há uns meses. O Presidente já fez várias declarações a criticar o Governo. As vozes a pedir Governos de PS e PSD começaram a levantar-se. Tudo sinais de que se aproxima uma mudança de Governo. Espero sinceramente que não seja liderado pelo Borges.
terça-feira, 19 de março de 2013
Organoléptico és tu!
Na nuvem de palavras que se encontra à direita neste blog aquela que aparece mais destacada é parvoíces! Faz sentido e parece-me uma sinopse perfeitamente adequada do que se escreve por aqui. Tendo dito isto, afirmo sem pudor que somos pessoas a todos os níves espectaculares, fenomenais e particularmente humildes.
A comédia é uma coisa interessante. Quando bem feita pode ser, por exemplo, uma arma política bastante eficaz . Qualquer pessoa minimamente bem preparada consegue defender-se de um argumento contrário, mas esquivar-se ao ridículo já é bem mais complicado. Logo se eu disser que o político tal e coiso está equivocado nas suas previões macroeconómicas ele pode sempre argumentar em contrário. Mas se alguém consegue de forma eficaz expôr o lado ridículo, ou bazófio desse mesmo político, é provável que essa imagem perdure no espaço público, especialmente quando se conjuga com uma perda de popularidade ou com uma série de erros políticos que vão de encontro à narrativa criada pelo comediante.
Mas a comédia pode também ter uma função introspectiva e ajudar as pessoas a lidar com coisas pessoais. O Louis CK, do qual encontram dois vídeos no post anterior, é particularmente bom nisto. Ele fala dos filhos e diz que eles são uns otários porque se recusam a calçar os sapatos quando a família está prestes a sair de casa; diz que a paternidade é uma coisa aborrecida, porque as conversas dos seus filhos são pouco interessantes; mas também fala de ser gordo, da relação com a mulher, do facto de querer ser boa pessoa mas raramente o conretizar etc. Se fosse outra pessoa facilmente o que ele diz se tornaria aborrecido. Mas a forma como ele o faz é catártica: ao exagerar nas pequenas coisas da vida que nos irritam, nos aborrecem ou nos envergonham ele ajuda-nos a perceber que todos estes problemas são na verdade pouco importantes. Ao partilhar connosco a "miséria" do dia-a-dia ele lembra-nos que o dia-a-dia até pode ser, de forma geral, bastante agradável, embora não exageremos, apenas um pouco e a espaços!
E pronto, era isto.
A comédia é uma coisa interessante. Quando bem feita pode ser, por exemplo, uma arma política bastante eficaz . Qualquer pessoa minimamente bem preparada consegue defender-se de um argumento contrário, mas esquivar-se ao ridículo já é bem mais complicado. Logo se eu disser que o político tal e coiso está equivocado nas suas previões macroeconómicas ele pode sempre argumentar em contrário. Mas se alguém consegue de forma eficaz expôr o lado ridículo, ou bazófio desse mesmo político, é provável que essa imagem perdure no espaço público, especialmente quando se conjuga com uma perda de popularidade ou com uma série de erros políticos que vão de encontro à narrativa criada pelo comediante.
Mas a comédia pode também ter uma função introspectiva e ajudar as pessoas a lidar com coisas pessoais. O Louis CK, do qual encontram dois vídeos no post anterior, é particularmente bom nisto. Ele fala dos filhos e diz que eles são uns otários porque se recusam a calçar os sapatos quando a família está prestes a sair de casa; diz que a paternidade é uma coisa aborrecida, porque as conversas dos seus filhos são pouco interessantes; mas também fala de ser gordo, da relação com a mulher, do facto de querer ser boa pessoa mas raramente o conretizar etc. Se fosse outra pessoa facilmente o que ele diz se tornaria aborrecido. Mas a forma como ele o faz é catártica: ao exagerar nas pequenas coisas da vida que nos irritam, nos aborrecem ou nos envergonham ele ajuda-nos a perceber que todos estes problemas são na verdade pouco importantes. Ao partilhar connosco a "miséria" do dia-a-dia ele lembra-nos que o dia-a-dia até pode ser, de forma geral, bastante agradável, embora não exageremos, apenas um pouco e a espaços!
E pronto, era isto.
segunda-feira, 18 de março de 2013
Palavras desengonçadas
Hoje não vou dizer mal do Governo. Mas antes de lá chegar gostaria de dizer que o falhanço deste orçamento chegou mais cedo do que o previsto. Havia outra hipótese? Claro que não, como várias pessoas bem informadas têm vindo a anunciar (apenas um exemplo). Após tantos protestos, tantas discussões, tantas palavras escritas, este Governo em vez de cair vai implodir e não podem queixar-se de ninguém a não ser de si próprios.
Entretanto esta manchete lembrou-me o que tinha escrito há poucos dias. Mais uma vez levamos com este discurso parolo-tecnocrata feito por quem nunca teve que procurar um emprego nem viver com um salário da treta.
Pronto, já chega, agora sim vou directo ao assunto que me trouxe aqui:
sexta-feira, 15 de março de 2013
Ipod do Vitinho II
Aproveitando a onda de entusiasmo de mais um post, gostaria de fazer uma pergunta.
Foi só impressão minha, ou houve mais alguém que ouviu esta música de fundo na conferência de imprensa do nosso ministro favorito, esta manhã?
Foi só impressão minha, ou houve mais alguém que ouviu esta música de fundo na conferência de imprensa do nosso ministro favorito, esta manhã?
segunda-feira, 11 de março de 2013
Call the police!
Olá! Este blogue é como os velhos, mija com interrupções. Nem vale a pena voltar a anunciar o regresso, cheio de confiança, afiançando que desta vez estou aqui com pujança: vou escrever qualquer coisa e depois logo se vê.
Quanto a este governo apenas tenho a dizer que estamos cada vez melhor. É tempo de mudar de atitude e perceber que a austeridade, mais do que uma política fiscal, é uma tentativa de expiação de pecados, que fortalece o espírito e nos coloca de bom grado perante o Espírito Santo. É tempo de ver que o estrangulamento do consumo não significa destruir as expectativas de uma larga fasquia da população, que ainda há pouco tinha ascendido a algo que se parecia com uma classe média: pelo contrário, a austeridade é uma carícia, que nos aproxima de um estado de alma mais puro, no qual podemos comungar com o Senhor. Quanto mais desiludidos e frustrados melhor, porque é nesses momentos de desespero, quando nos despojamos de tudo o que é material e terreno, que percebemos o quão egoístas fomos, ao pensar que tinhamos direito a uma vida decente.
O apelo à moral católica não te convence? No problem, toma lá um pouco de management speak, assim mesmo em Inglês, como aprendi na escola de gestão onde paguei uma fee pela pós-graduação. A crise é uma oportunidade. Os portugueses são passivos e não o entendem mas felizmente há um grupo cada vez maior de gente jovem, fresca, bonita e urbana que o percebe: agora é o momento de abrir o teu negócio. Sê optimista, adopta uma postura moderna, usa a Internet neste flat world, convence um grupo de venture capitalists a investir no teu projecto e tu conseguirás, porque não é com uma atitude negativa que isto muda. Só tenho uma palavra para ti: empreendedorismo. Com energia e talento terás o mundo na palma das tuas mãos!
Ainda assim, não está convencido? Você terá então que entender que o rácio da nossa dívida em relação ao PIB degradou nos últimos anos e que tendo em conta as previsões macroeconómicas para o crescimento da nossa economia não nos resta alternativa senão adoptar uma política de consolidação fiscal que elimine o défice estrutural do Estado e nos coloque num caminho de estabilidade orçamental que permita o retorno da confiança e do investimento. Este caminho implica também uma série de reformas estruturais que libertem os factors produtivos e provoquem uma redução do custo unitário do trabalho para recupermos a nossa competividade em relação à Alemanha.
Moral da história: ou nos dão uma lição de moral, ou nos tratam por parvos, ou nos aborrecem, mas o final é sempre o mesmo: come e cala!
Quanto a este governo apenas tenho a dizer que estamos cada vez melhor. É tempo de mudar de atitude e perceber que a austeridade, mais do que uma política fiscal, é uma tentativa de expiação de pecados, que fortalece o espírito e nos coloca de bom grado perante o Espírito Santo. É tempo de ver que o estrangulamento do consumo não significa destruir as expectativas de uma larga fasquia da população, que ainda há pouco tinha ascendido a algo que se parecia com uma classe média: pelo contrário, a austeridade é uma carícia, que nos aproxima de um estado de alma mais puro, no qual podemos comungar com o Senhor. Quanto mais desiludidos e frustrados melhor, porque é nesses momentos de desespero, quando nos despojamos de tudo o que é material e terreno, que percebemos o quão egoístas fomos, ao pensar que tinhamos direito a uma vida decente.
O apelo à moral católica não te convence? No problem, toma lá um pouco de management speak, assim mesmo em Inglês, como aprendi na escola de gestão onde paguei uma fee pela pós-graduação. A crise é uma oportunidade. Os portugueses são passivos e não o entendem mas felizmente há um grupo cada vez maior de gente jovem, fresca, bonita e urbana que o percebe: agora é o momento de abrir o teu negócio. Sê optimista, adopta uma postura moderna, usa a Internet neste flat world, convence um grupo de venture capitalists a investir no teu projecto e tu conseguirás, porque não é com uma atitude negativa que isto muda. Só tenho uma palavra para ti: empreendedorismo. Com energia e talento terás o mundo na palma das tuas mãos!
Ainda assim, não está convencido? Você terá então que entender que o rácio da nossa dívida em relação ao PIB degradou nos últimos anos e que tendo em conta as previsões macroeconómicas para o crescimento da nossa economia não nos resta alternativa senão adoptar uma política de consolidação fiscal que elimine o défice estrutural do Estado e nos coloque num caminho de estabilidade orçamental que permita o retorno da confiança e do investimento. Este caminho implica também uma série de reformas estruturais que libertem os factors produtivos e provoquem uma redução do custo unitário do trabalho para recupermos a nossa competividade em relação à Alemanha.
Moral da história: ou nos dão uma lição de moral, ou nos tratam por parvos, ou nos aborrecem, mas o final é sempre o mesmo: come e cala!
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