Comanda a tradição que a ausência seja mitigada com palavras, mas o que fazer quando a própria ausência se define na carência de comunicação? Aconselha-me o apurado desconforto social que um pedido de desculpas deverá servir!
Permitam-me também prolongar este mea culpa à presente situação que vivemos, nós os do privado, vocês os do público, todos os que partilham a nacionalidade daquilo que foi em tempos um país à beira-mar plantado! É verdade! Fui eu que inventei esta crise e é graças a mim que ela se vai perpetuando! Não vejo nenhum castigo à altura deste meu crime que não seja o ser acorrentado e esquecido nas catacumbas da memória colectiva! Bom, talvez não haja necessidade de sermos tão dramáticos mas, pelo menos, alguém devia ralhar comigo!
Todo este sentimento de culpa, que encheria de orgulho qualquer dedicado religioso judeu, invade-me a cada sucessivo despertar. No momento em que estas pupilas se libertam do jugo de Morpheu, filho de Hipnos (vá lá, leiam um livro de vez em quando!) o peso da responsabilidade atinge-me que nem um soco na face de um garoto a quem estão a roubar o dinheiro do lanche! A dor aguda do vórtex de culpabilidade em que me vejo envolvido tende a aumentar, assim que os meus sentidos procuram uma plataforma de comunicação para me possa inteirar do estado do trânsito das, aparentemente, únicas duas cidades de um país de aproximadamente 11/12 milhões de pessoas!
As intervenções de pessoas que têm muito para dizer, mas que curiosamente nada conseguem solucionar, são servidas em catadupa e, em todas elas, a ideia é reforçada e os dedos estão apontados a mim, desgraçado e ensonado: sou eu que vou ter que pagar por isto!!
Faz todo o sentido. Afinal de contas, fui eu quem deixou que os recursos deste país tivessem sido miseravelmente aproveitados até chegar a um ponto em que pouco ou nada há que aproveitar! Fui eu que, por exemplo, não soube gerir décadas de fundos europeus, gastos a construir estradas redundantes ou a aumentar a frota automóvel em detrimento de um desenvolvimento agrícola sustentável e viável à exportação!
Eu sabia que aquelas minhas decisões duvidosas um dia haviam de voltar para me assombrar...
Bem me parecia que a culpa era tua
ResponderEliminarEu também desconfiava, mas ainda bem que descobriste isso sozinho...
ResponderEliminar