Após ter referido no meu último post que evito comentar coisas sobre as quais não sei o suficiente (ou pelo menos, não tanto quanto outros que o fazem melhor), eis se não quando me deparo com um assunto sobre o qual sei alguma coisa. Mai nada!.
Este artigo no New York Times de hoje fala do número cada vez maior de jovens qualificados do Sul da Europa que estão a emigrar para o Norte em busca de emprego. Neste caso o artigo fala da Alemanha como país receptor, mas algo semelhante acontece para Inglaterra, países escandinavos e outros, incluindo Angola e Brasil. Sendo que também eu sou um emigrante, esta coisa interessa-me. Por um lado preocupam-me os estragos que isto poderá causar no meu país no médio-prazo, mas por outro não me posso queixar uma vez que segui o mesmo caminho.
Os problemas relacionados com esta perda de jovens qualificados são fáceis de enumerar. Portugal tem uma deficiência crónica de gente qualificada, especialmente no sector privado, onde as pequenas e médias empresas (que são a maioria das empresas Portuguesas) têm dificuldade em absorver e dar formação ao número cada vez maior de gente com ensino superior*. Além disso, uma vez que a maior parte do nosso ensino superior é financiado pelo Estado, isto signifca que o Estado Português investiu milhares de euros na formação de pessoas que agora vão contribuir para a economia de outros países. No médio prazo isto poderá ser um problema, especialmente se a situação económica não melhorar rapidamente. Neste artigo é dito que se estes emigrantes não regressarem dentro dos próximos dois anos, a maioria não voltará, porque entretanto casam-se e constituem família e a partir desse momento o regresso torna-se muito mais complicado. Mas...
Mas há outra forma de olhar para isto. Eu sei que é preciso ter alguma esperança para pensar assim e que neste momento a esperança não abunda, mas eu acredito que isto poderá ser positivo para Portugal e para o resto do Sul da Europa. Primeiro que tudo, no curto-prazo, esta emigração tira alguma pressão sobre os países de origem, onde o desemprego continua a aumentar. Além disso garante que estes jovens não estão parados: estão a trabalhar, a ganhar experiência, a aprender outras línguas, outras formas de trabalhar. Mas mais importante, no médio-longo prazo estas pessoas poderão dar algo de volta ao seu país. Conheci muita gente em Inglaterra e agora na Alemanha que vem destes países e há uma coisa que os distingue da geração de emigrantes que saíram de Portugal nos anos 60. Estes jovens (e alguns menos jovens) não querem apenas um salário, uma casinha e um carrito, no qual podem voltar à terra no Verão. Querem também qualidade de vida, e é quase consensual entre todos que o estilo de vida no país de origem é melhor do que aquele que encontram no país de destino. Logo muitos deles gostariam de regressar, se tivessem oportunidade para isso.
Quando as coisas melhorarem (infelizmente não serão 2 anos... Eu diria que serão precisos pelo menos 10 a 15 anos até que o nível de vida regresse ao estado em que estávamos antes da crise. O que por si nem é famoso, mas enfim!) muitos quererão regressar, mesmo que entretanto casem e tenham filhos. Quando regressarem, terão aprendido muitas coisas que nunca teriam aprendido se ficassem (atenção, não estou a dizer com isto que quem fica não aprende). Alguns pensarão que não se imaginam a trabalhar por conta de outrém, logo irão abrir empresas e usar os contactos que obtiveram no estrangeiro para exportar e crescer para o exterior. A maioria já não estará habituado às cunhas e compadrios que minam tanta coisa em Portugal, nem à complacência com a corrupção e abusos de poder que afectam a democracia Portuguesa. Isto terá (espero) um impacto positivo não só na nossa economia, mas também na qualidade da vida pública.
Já existem alguns casos conhecidos em Portugal de pessoas que fizeram este trajecto; e a nível mundial existe um caso relativamente famoso, envolvendo pessoas nascidas nos EUA mas com raízes em Taiwan e na China, que voltam à terra dos pais e usam os conhecimentos e contactos adquiridos no exterior para criar empresas avançadas tecnologicamente e com rápido crescimento. Este livro fala disso. É óbvio que tudo isto implica, como disse antes, uma certa dose de optimismo, que para muitos poderá ser difícil de ter neste momento. Não posso obviamente garantir que isto irá acontecer. Mas posso dizer que espero que aconteça...
*É verdade que poderiamos questionar se os cursos administrados são os mais relevantes, mas isso para mim é uma forma errada de pensar. Uma empresa com recursos pode pegar num licenciado em literatura ou filosofia e transformá-lo(a) num gestor de recursos humanos por exemplo. É verdade que essa pessoa não tem o conhecimento específico, mas tem uma série de outras competências que desenvolveu ao longo da sua educação que podem trazer algo de original
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